O mercado de IA muda rápido demais para qualquer leitura fechada durar muito tempo. Por isso vale olhar para trás: o que mudou entre agosto de 2025 e setembro de 2026 na forma como as empresas medem, ou deixam de medir, o retorno da IA.
Três marcos ajudam a contar essa história. Cada marco respondeu à pergunta certa para o momento em que apareceu. Juntos, mostram uma régua que não parou de subir.
Agosto de 2025: a maioria dos pilotos não chega a lugar nenhum
O ponto de partida é o relatório The GenAI Divide: State of AI in Business 2025, do MIT NANDA. A pesquisa cruzou entrevistas com líderes, um levantamento com centenas de funcionários e a análise de centenas de implementações públicas de IA em empresas. A conclusão foi: cerca de 95% dos pilotos corporativos de IA generativa não chegavam a gerar impacto mensurável no resultado financeiro.
O problema central? Não a qualidade dos modelos de IA, mas a “lacuna de aprendizado” tanto para as ferramentas quanto para as organizações. Embora os executivos frequentemente culpem a regulamentação ou o desempenho do modelo, a pesquisa do MIT aponta para uma integração corporativa falha. Ferramentas genéricas não aprendiam com o fluxo real da operação, e a maior parte do orçamento ia para áreas onde o retorno é mais difícil de isolar, como vendas e marketing, enquanto o ganho mais consistente aparecia em automação de back office e eliminação de terceirização dos processos de negócios, reduzindo custos com agências externas e otimizando as operações.
Um dado reforça o diagnóstico: comprar de fornecedores especializados ou fechar parceria tinha taxa de sucesso bem mais alta do que construir a solução internamente. A régua de 2025, resumindo, era simples: a maioria das empresas estava testando IA sem ter estrutura para transformar teste em resultado.
Maio de 2026: o Brasil entra na conversa, e o problema aparece nas empresas, não no indivíduo
Nove meses depois, um relatório assinado por dois brasileiros em Stanford, Bernardo Precht e Felipe Lourenço, trouxe a mesma pergunta para o contexto brasileiro, com um recorte diferente. O relatório Uso diário, fluência rasa cruzou mais de 50 horas de entrevistas com executivos, diretores de RH e MBAs, além de dezenas de fontes secundárias.
A descoberta central inverteu a expectativa: o brasileiro individualmente não está muito atrás do padrão americano no uso de IA no dia a dia. O atraso aparece quando essa fluência precisa virar capacidade organizacional. Faltava, segundo os autores, um dono claro para a adoção de IA dentro das empresas: a pauta circulava entre RH, TI e áreas de negócio sem que ninguém respondesse pelo resultado.
Três decisões concretas apareciam como o que separava empresas maduras das que ainda tratavam IA como experimento disperso:
- Nomear um dono operacional com mandato para medir resultado, não só acompanhar adoção.
- Escolher poucos fluxos reais de trabalho em vez de espalhar dezenas de pilotos.
- Amarrar cada fluxo a um objetivo de negócio desde o início, não depois.
O relatório também apontou uma tensão que ainda ecoa: a capacitação em IA é, na prática, trabalho de RH, mas RH raramente está no centro da decisão sobre IA dentro das empresas. Boa parte da jornada de adoção é capacitação. Feita com dono, ela tira o trabalho repetitivo e devolve o humano para interação e critério. Sem dono, fica suspensa entre RH, TI, negócio e fornecedor. Ninguém presta contas do resultado.
Setembro de 2026: a régua muda de novo, e quase ninguém consegue alcançá-la
Um ano depois do relatório do MIT, a pesquisa 1H 2026 Enterprise Software Survey, do Futurum Group, com 830 líderes de TI, mostrou que a métrica de sucesso mudou de novo. Impacto financeiro direto passou a ser o critério mais citado, quase dobrando em relação ao ano anterior. Produtividade, que dominava a conversa até 2025, perdeu peso como métrica principal.
O problema é que a maior parte das empresas ainda não tem como responder a essa nova régua. Exigir impacto financeiro não é o mesmo que conseguir medi-lo. No mesmo ciclo, só entre 5% a 8% das empresas chegaram a um ROI mensurável em larga escala. Outros levantamentos do período (AI Radar da BCG, Global AI Pulse da KPMG, State of AI da McKinsey) descrevem o mesmo padrão: gasto subindo e a medição ainda sem acompanhar o ritmo de aumento desses gastos.
A leitura de quem acompanha o setor é direta: a próxima fase da adoção de IA corporativa não vai ser travada pela capacidade dos modelos, mas pela capacidade de medir o que eles entregam. Quem conseguir ligar gasto em IA a resultado financeiro específico deve capturar orçamento. Quem não conseguir vai enfrentar pressão sobre o programa de IA, não porque a tecnologia falhou, mas porque a régua de prestação de contas ficou mais alta.
O fio que conecta os três momentos
Lidos em sequência, os três marcos contam uma história só, com o mesmo personagem central: a distância entre o quanto se investe em IA e o quanto se consegue provar que esse investimento rendeu.
- Em 2025, a maior parte das empresas nem chegava a medir. O piloto travava antes disso.
- Em maio de 2026, o Brasil mostrou que o problema não é falta de gente usando IA. É falta de estrutura que transforme esse uso individual em resultado de negócio.
- Agora em setembro de 2026, a exigência de prova financeira ficou mais dura e a maioria das empresas segue sem a estrutura de medição para respondê-la.
O gasto subiu. A prova de resultado, não. Antes de medir o retorno, vale perguntar quem responde, dentro da empresa, por fazer o time usar a ferramenta, e se esse time se sente seguro para isso.
Para olhar o seu caso, o diagnóstico de adoção é uma folha para preencher com o que você já sabe.
Perguntas frequentes
Qual porcentagem dos pilotos de IA falha em gerar retorno financeiro?
Segundo o relatório The GenAI Divide: State of AI in Business 2025, do MIT NANDA, cerca de 95% dos pilotos corporativos de IA generativa não chegavam a gerar impacto mensurável no resultado financeiro.
Por que as empresas brasileiras têm dificuldade em transformar uso de IA em resultado?
O relatório Uso diário, fluência rasa, de Bernardo Precht e Felipe Lourenço (mai/2026), mostra que o brasileiro individualmente não está muito atrás do padrão americano no uso de IA. O atraso aparece quando essa fluência precisa virar capacidade organizacional: falta dono, poucos fluxos e objetivo de negócio.
Qual é a métrica de sucesso mais usada para IA em 2026, e quantas empresas conseguem medi-la?
Na pesquisa 1H 2026 do Futurum Group, impacto financeiro direto passou a ser o critério mais citado. Exigir impacto financeiro não é o mesmo que conseguir medi-lo. No mesmo ciclo, só entre 5% a 8% das empresas chegaram a um ROI mensurável em larga escala.
Fontes
- MIT NANDA, The GenAI Divide: State of AI in Business 2025 (ago/2025), via Fortune: finance.yahoo.com
- Bernardo Precht e Felipe Lourenço, Uso diário, fluência rasa (mai/2026): aiworkforcebrazil.com.br
- Cobertura do mesmo relatório: Startups.com.br
- The Futurum Group, 1H 2026 Enterprise Software Decision Maker Survey, via Forkast News, The ROI Metric Shift (set/2026): forkast.news
